“Cidade submersa é reduzida a tetos e parabólicas no Maranhão”. Esta foi a manchete de uma notícia publicada na BBC News sobre a situação da cidade de Trizidela do Vale, que teve 90% de sua área atingida pela enchente. As antenas parabólicas ficaram acima do nível das inundações, como descreveu o correspondente Gary Duffy. As antenas parabólicas fazem parte do cenário das enchentes, mas não foram completamente afetadas. Uma coincidêndia que serve como metáfora sobre as diferentes fontes de informação e cobertura da tragédia.
Tenho acompanhado em fóruns de discussão online ou até em conversas com amigos uma comparação inevitável entre a cobertura feita pela da mídia nacional, principalmente da tv, sobre as enchentes de Santa Catarina, em dezembro de 2008, e as enchentes que atingiram o Norte e Nordeste nos meses de abril e maio deste ano.
Essa discussão deve ir além de uma postura bairrista para questionarmos o próprio trabalho jornalístico e as formas de mobilização do povo brasileiro.
As enchentes no Norte e Nordeste podem ser consideradas como pauta oculta? As notícias na tv, rádios, jornais e portais jornalísticos nacionais e internacionais indicam que o tema está na pauta sim.
E onde está a diferença em relação à cobertura midiática da tragédia de Santa Catarina? Na forma da divulgação, no apelo emocional e exploração sensacionalista. Isto me leva a uma outra indagação: O que move a solidariedade do brasileiro? Precisamos do choro em close-up, do resgate ao vivo espetacularizado, de apresentador com voz embargada da emoção contida? Precisamos da exploração sensacionalista mesmo que seja para depois atacarmos o sensacionalismo?
Até pouco tempo, toda insatisfação relacionada à cobertura feita pelos grandes meios de comunicação era manifestada nas carta de leitores, na troca de canal da tv ou de emissora de rádio e podíamos nos sentir leitores/telespectadores/ouvintes “críticos” em oposição à maioria “alienada”.
Mas enquanto discutimos e criticamos, há 294.461 pessoas desalojadas, aquelas que estão hospedadas com amigos ou familiares, e 135.592 pessoas desabrigadas, aquelas que dependem de abrigos públicos, segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, dia 29, pela Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), do Ministério da Integração Nacional. Notícia completa neste link.
Agora temos acesso a ferramentas e possibilidades de divulgação e organização das notícias, de propor novas pautas e enquadramentos, de estabeler própria agenda. Então, por que ficar apenas reclamando da cobertura feita pela grande mídia?
Outros meios, outras mensagens
Além dos mapeamentos citados em post anterior no Eu Jornalisto, há outras importantes alternativas de produção e divulgação das informações das enchentes.
O blog Enchentes no Nordeste foi lançado para agregar e gerar informações sobre as cidades atingidas como forma de mobilizar ajuda aos diretamente afetados. Os dados são organizados por Leonardo Fontes, Gabriel Ramalho e Emílio Moreno. Para colaborar basta enviar o link do artigo ou foto para o email leonardo@blogueisso.com.
O blog faz parte do rede BlogueIsso!, projeto que reúne difrentes blogueiros do Ceará.
Uma alternativa para quem fez bons registros fotográficos das cidades alagadas é o site Citizenside, considerado uma das principais plataformas de jornalismo cidadão, com todo conteúdo produzido pelos próprios usuários. O jornalista maranhense Bruno Barata publicou fotos feitas na cidade de Bacabal, Maranhão, e as imagens podem ser vistas neste link.
Os desabrigados que não conseguiram salvar seus aparelhos de tv’s e rádio, certamente salvaram câmeras para filmar ruas alagadas cujas imagens estão disponíveis no Youtube.
E você, ficará submerso em críticas ou seguirá a correnteza da colaboração?
Tá dificil, viu?! Cada um vai pra um lado e nada trabalha junto e continua essa confusão. Tem algumas coisas sendo feitas mas ainda não é suficiente.
Além das várias diferenças entre as coberturas, estava pensando aqui que lá as pessoas tem uma forma de viver, mas aqui as pessoas estão tão acostumadas a viver assim, sem esperança, sem ter algo seu, que tu não vê o desespero que era pra ter, tu não vê o povo reclamando um direito seu de boa moradia e de ajuda IMEDIATA do governo que chegou difícil e bem pouco nas regiões. É incrível, ver as pessoas vivendo naquela situação, vendo famílias dizendo que é normal.
NORMAL????
E a senhora governadora chega pro Lula e diz que o Maranhão estão sob controle??? Aonde está o controle? É o cabresto no estado ou a qualidade de vida da população?
Eu quero ver é resultado! E isso até agora esses irresponsáveis não tiveram capacidade de fazer!
Olá, Inconformado
Existe realmente essa triste “vida de gado” que você destacou. “Povo marcado e povo feliz”.
Sarita,
também não quero parecer bairrista ou limitar o debate a cor da pele, mas não consigo descartar a questão da imagem.
Ver a “desgraça” em um local reconhecidamente pobre, com pessoas pobres [e aqui cabe um destaque: majoriamente afrodescentes], é normal.
Agora você cobrir uma “desgraça” num local onde encontramos várias criancinhas de olhos azuis/verdes, com aqueles cabelinhos brilhando ao sol, não é rotineiro.
Ver uma criança pobre, “preta”, falando que não tem o que comer, ou que não vai ganhar seu presente de Dia das Crianças ou de Natal é normal, por isso, temos que convidar inúmeros famosos e “globais”, para demonstrar sua solidariedade e colocar um sorriso no rosto da pobre criança pobre. E nete caso o destaque não é a criança e sim o “global”.
Semana passada tive um exemplo nítido dos estereótipos e arquétipos sociais. A questão estava em fazer um cartaz para um programa social e daí ousaram colocar um mão branca na arte. Problema? Nenhum, se a mão branca não estivesse, digamos assim, asseptizada: sem manchas, calos, sujeiras. Pobre não toma banho, não se limpa?? Para eu falar para o pobre eu preciso “sujar” a arte do cartaz? [e isto não é direcionar o discurso para o público-alvo, comunicação dirigida não é tão simplista assim].
Percebes o que quero destacar?
Karla, maravilhoso seu destaque. Foi um ângulo que não abordei mas que faz parte do contexto mesmo. Manda esse cartaz quando estiver pronto?
Também não gosto de ensaios fotográficos que enquadram a pobreza sempre da mesma forma, com os mesmos estereótipos.
[...] informações sobre essas iniciativas: Enchentes: os meios e as mensagens Mapa das chuvas: experiência [...]